O Brasil profundo: da autopoiese política ao submundo das verdades patrocinadas

POR DANILO MENESES

 

A engrenagem política e jurídica brasileira é tão eficiente em se reproduzir que daria inveja a aos criadores da teoria da autopoiese. Enquanto isso, o cidadão aplaude o teatro da transparência sem perceber que o roteiro foi escrito com verba publicitária.

 

Para melhor compreensão do tema, vamos começar do início. A teoria da autopoiese foi desenvolvida pelos biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela. Ela define um sistema autopoiético como um sistema vivo que se produz e se mantém continuamente, criando suas próprias partes.

 

Essencialmente, autopoiese é a capacidade de um ser vivo de se auto-criar, auto-organizar e auto-conservar, mantendo-se como uma unidade autônoma através de suas interações internas. E a referida teria pode ser facilmente transplantada ao panorama político brasileiro.

 

Diz-se que o “Brasil não é para amadores”. É verdade — mas não pelo excesso de complexidade, mas sim pela sofisticação da simulação.

 

A política brasileira é uma autopoiese institucional no sentido mais autêntico do termo: um sistema que se retroalimenta, se justifica e se reproduz, indiferente ao ambiente externo.

 

Nosso sistema é uma máquina que fala de si, para si, sobre si. E cada vez que alguém tenta mudá-la, ela o engole, digere e devolve como parte dela mesma.

 

Não vivemos mais na era dos fatos — vivemos na era dos enunciados plausíveis, um verdadeiro teatro das narrativas.

 

O poder já percebeu que a verdade não precisa ser controlada, basta controlar o canal por onde ela sai, chega ou se transporta.

 

A relação entre o poder público e a imprensa tradicional é o exemplo mais elegante desse pacto silencioso.

 

A justificativa oficial para os contratos milionários de publicidade institucional é sempre a mesma: “informar o cidadão”. Porém, a justificativa real é mais prosaica: não irritar o cliente.

 

O resultado é próximo do que Pierre Bourdieu chamaria de “campo simbólico capturado”: o jornalismo, que deveria fiscalizar o poder, torna-se parte do seu ecossistema de autoproteção.

 

Não é censura — é cortesia. A linha editorial muda de tom conforme o fluxo de caixa da secretaria de comunicação. E, curiosamente, as manchetes também ficam mais suaves logo após os aditivos contratuais.

 

Vivemos, de fato, um momento de transformação: o poder, que era central (monopolizado por grandes grupos empresariais que atuam na imprensa tradicional) está cada vez mais difuso.

 

O que antes era concentrado — Brasília comprando manchetes em jornais — agora se espalhou como fungo em rede.

 

E, como não poderia ser diferente, cada município aprendeu a lição. Cada Câmara de Vereadores descobriu que um contrato de publicidade bem posicionado vale mais que qualquer discurso.

 

E com as redes sociais a operação ficou mais barata e mais eficiente. Hoje o poder não compra apenas jornais: ele compra “histórias” – e fabrica verdades.

 

Compra influenciadores, shows, peças teatrais, campanhas culturais e até curadorias de pensamento — todas com dinheiro público ou indiretamente público (via renúncia fiscal).

 

À título de exemplo, a Lei Rouanet virou o grande laboratório dessa engenharia: o Estado financia o artista que financia a narrativa que financia o Estado. Uma espécie de circulação semântica autofágica – como diria Luhmann (se tivesse Instagram).

 

Vivemos apenas uma ilusão de pluralidade. Com a popularização da internet, acreditamos que havíamos democratizado o debate. Ingenuidade clara.

 

O que ocorreu foi apenas a atomização da dependência. O poder percebeu que, se antes precisava comprar um grande jornal, hoje basta financiar cem pequenos influencers.

 

O resultado líquido é o mesmo (eu diria que até mesmo mais potente): controle narrativo, pulverizado e camuflado.

 

O filósofo Habermas chamaria isso de “colonização do mundo da vida”: o espaço público, que deveria ser o campo de deliberação racional, é invadido por interesses sistêmicos — neste caso, a lógica publicitária do poder político.

 

A diferença é que agora o palanque cabe no bolso (via smartphone) e o discurso vem com filtro.

 

O sistema político brasileiro é autopoiético e, ao mesmo tempo, líquido – uma mistura de Luhmann/Buaman.

 

Ora, como claramente demonstrado, ele se reproduz e se adapta. E a sua inteligência não está nos indivíduos — está na estrutura.

 

O servidor pode mudar, o partido pode mudar, o discurso pode mudar, mas a autopoiese permanece: o Estado continua financiando a sua própria versão dos fatos.

 

Bauman, se fosse brasileiro, chamaria isso de modernidade gasosa: a opinião pública evapora tão rápido que o poder só precisa esperar o próximo ciclo de manchetes. Não há necessidade de censura formal — a liquidez da atenção já faz o trabalho sujo.

 

Mais grave ainda, toda essa parafernália criou uma espécie de “mercado da moralidade”. A opinião pública virou um ativo volátil.

 

Hoje, a indignação é cotada em tempo real. E como em todo mercado, há insiders e especuladores. Os insiders são os que têm acesso aos contratos, aos editais, às verbas de patrocínio. Os especuladores são os que surfam o moralismo das redes até serem convidados para o próximo projeto cultural com selo (e dinheiro) estatal.

 

O resultado é o que Nassim Taleb chamaria de antifragilidade política: quanto mais o sistema é criticado, mais ele se fortalece. A cada escândalo, uma nova campanha institucional. A cada CPI, um novo programa de comunicação. O sistema não se corrige — ele se redecora.

 

Este é o panorama perfeito para construção do nosso país como um terreno fértil para “verdades patrocinadas”.

 

O Brasil não tem um problema de corrupção apenas material. Tem um problema de corrupção semântica.

 

As palavras “democracia”, “liberdade de expressão”, “transparência” e “participação social” ainda são usadas, mas com sentidos cuidadosamente calibrados pelos departamentos de marketing estatal.

 

A “democracia” se transformou em um grande projeto de comunicação integrada, onde o objetivo não é informar, mas formar o imaginário coletivo.

 

E o cidadão comum, atolado em boletos e timelines, não percebe que o debate público virou peça publicitária.

 

No fim, somos uma república de narrativas: cada gestor compra a sua, cada veículo vende a sua, e o povo, entre um story e outro, continua acreditando que ainda existe opinião pública — quando o que temos, de fato, é apenas “opinião patrocinada”.

 

Mecanismos novos, objetivos antigos. E segue a lógica de que a caneta da história segue sob o domínio das mãos de quem tem mais poder – e dinheiro…

 

 

 

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