Ausência não é negativa: epistemologia para tempos de checagem apressada

 

POR DANILO MENESES

 

O desconhecido governa mais do que admitimos. Como diria Nassim Nicholas Taleb, “os cisnes negros não pedem licença”. Karl Popper completaria: ciência que não se deixa atacar não merece crédito.

 

No entanto, em épocas atuais, floresceu um monopólio da razão de gabinete — a versão pós-moderna do racionalismo tardio — em que “agências de checagem” e porta-vozes oficiais confundem ausência de evidência com evidência de ausência. E o fenômeno é ainda pior: não só fazem confusão epistemológica básica, como vendem essa confusão como serviço público. É pura epistemologia com pressa — e com muito marketing.

 

Este texto é um convite irônico e sério a voltar ao básico: nomear a ignorância, separar “não vimos” de “está refutado” e lembrar que o rigor é menos um tom de voz e mais um método. Sem isso, a “narrativa científica” vira mais um produto da indústria da opinião.

 

Vamos começar pelo pilar que deveria estar na base de qualquer conversa: ausência de evidência é diferente evidência de ausência. Popper ensinou que o conhecimento avança na luta contra hipóteses fortes: testa, tenta refutar, mede o dano do contra-exemplo.

 

Já Taleb esfrega sal nessa ferida: o mundo é dominado pelo que não vemos e a amostra costuma ser míope, tendenciosa e frágil. Quem trata “não encontrei” como “não existe” faz dois pecados: epistemológico (ignora o espaço do desconhecido) e prático (erra decisões sob incerteza).

 

O problema não é novo, mas ganhou branding: a “checagem instantânea”, uma espécie de “lacração didática” – com selo da verdade em 280 caracteres. Tome o exemplo didático do “inhame não funciona para dengue”. Se quase não há ensaios robustos (randomizados, duplo-cego, com poder estatístico adequado) testando a hipótese, o que temos é ausência de evidência — uma zona escura.

 

Chamar essa escuridão de “evidência de que não funciona” é fraude intelectual. Pode até ser que não funcione. Mas, até que o método ande, o honesto é dizer: não sabemos. Taleb chamaria de via negativa: onde a informação é pobre, o mais inteligente é podar afirmações — não inflá-las.

 

Alan Sokal e Jean Bricmont, naquela crítica às imposturas intelectuais, apontaram um vício parecido: revestir dogmas com linguagem técnica para blindá-los do contraditório. A “versão 2.0” troca a os jargões pelos gráficos visuais: régua de “verdade/mentira/meia verdade” aplicada a questões que pedem intervalo de confiança, grau de incerteza, força de evidência, qualidade do desenho, risco de erro tipo I e II e viés de publicação. O veredito de semáforo é confortável — e epistemicamente sofrível.

 

E por que isso prospera? Porque, numa modernidade gasosa (o vapor depois do líquido) o antigo monopólio da narrativa se dissolve. Sem a imprensa de poucas portas, há pânico de comando: “alguém precisa selar a verdade”. A tentação de criar atores monopolistas de razão cresce — com duas consequências perversas:

 

  1. Desprezo pelo método (a pressa atropela as cautelas do conhecimento sólido e confiável);

 

  1. Confusão performática (comunicação vende certeza onde só existe grau de confiabilidade mínimo);

 

O resultado você já viu: “polícia do discurso” no lugar de “cultura do método”. E ciência sem método público vira só “autoridade de ocasião”.

 

Para sair desse beco, dá para combinar Popper (falsabilidade) e Taleb (antifragilidade sob incerteza) em procedimentos simples — menos épicos e mais úteis.

 

 

Um protocolo mínimo de honestidade epistemológica exige:

 

1) Rótulo correto do estado do conhecimento:

 

– “Há evidência a favor de X”: estudos robustos, replicados e consistentes.

 

– “Há evidência contra X”: estudos robustos refutam com poder adequado.

 

– “Evidência inconclusiva”: resultados mistos, baixa qualidade e viés provável.

 

– “Não há evidência suficiente”: ausência de estudos ou desenhos precários.

 

(O que é proibido: trocar o último por “prova de que X é falso”.)

 

2) Regra Popper-Taleb:

 

– Popper: toda afirmação relevante vem com alvo de refutação: “que experimento, que dado, em que horizonte me faria mudar de ideia?”.

 

– Taleb: explicitar fragilidades, como amostra pequena, viés de sobrevivência e extrapolação indevida. O sistema é antifrágil quando melhora com a crítica – se a crítica é tratada como heresia, você tem dogma, não ciência.

 

3) Tipos de erro na vitrine:

 

– Probabilidade de falso positivo (ver efeito onde não há).

 

– Probabilidade de falso negativo (não ver efeito que existe).

 

– Poder do estudo (se não houver, não conclua – descreva a limitação).

 

(O que é proibido: “n = 87 em três dias e decretamos ‘ineficaz’”.)

 

4) Cartão de transparência:

 

– Dados abertos (quando possível), conflitos de interesse, critérios de exclusão e revisão por pares.

 

– Distinção explícita entre causalidade e correlação (sem atalhos retóricos).

 

5) Linguagem sob controle:

 

– Trocar “mentira” por “não suportado” e “verdade” por “consistente com evidência atual”.

 

– Declarar horizonte de atualização (“revisaremos em X meses com novos dados”).

 

– Comunicar gradações (força, qualidade e consistência) e evitar maniqueísmos simplistas.

 

O teste AE≠EA (um lembrete simples) – antes de publicar um veredito, responda em voz alta: estou diante de ausência de evidência ou de evidência de ausência? Se é ausência, por quê? (Falta estudo? Falta desenho inadequado?) Que experimento plausível poderia transformar essa ausência em presença?

 

 

Se você não consegue responder, não emita certezas. Fale em “ignorância organizada”. E a checagem, some? Ao contrário: ela amadurece

 

Checar não é pôr algemas na dúvida: é estruturar a dúvida. Em vez do selo de “verdade pronta”, a checagem poderia entregar:

 

– Mapa do desconhecido (o que não sabemos e por quê);

 

– Hipóteses rivais e o que as separa;

 

– Qualidade da evidência por critérios públicos;

 

Isso eleva o nível da conversa e reduz o fetiche do árbitro. Popper sorri, Taleb relaxa. E é importante saber porque isso importa para além do laboratório.

 

No direito, na economia, na saúde pública, decidimos sob incerteza. A epistemologia não é ornamento: é governança do desconhecido. Se confundimos ausência com negativa, proibimos cedo o que não conhecemos — ou aprovamos cedo o que mal tocamos.

 

Em ambos os casos, empobrecemos o futuro: fechamos portas que mereciam pesquisa ou escancaramos portas para modismos frágeis. O dano não é apenas teórico, mas também político: transforma ciência em instrumento de narrativa e “checagem” em dispositivo de controle.

 

Se a ambição é reconstruir confiança, não há atalho comunicacional. O caminho é o mesmo desde sempre: método, publicidade de razões, humildade perante o dado e coragem de dizer “não sei”. Em tempos de modernidade gasosa, vender certeza instantânea pode render curtidas, mas não sustenta instituições.

 

“Não sei” é categoria nobre. “Não vimos” não é “não existe”. Conhecimento sério nasce refutável e melhora ferido. Checagem boa mapeia incerteza e explica método. Monopólio da razão é só método com medo — e método com medo não descobre nada.

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